O modo como apresentamos uma obra também comunica como entendemos o que é criar. Aslan Cabral

Na história da arte ocidental, existe um entendimento consolidado sobre o que compõe a ficha técnica de uma obra. Criado como ferramenta de identificação e catalogação para acervos e expografias, esse modelo — construído a partir de uma narrativa cultural centrada na figura do artista como gênio isolado — é marcado por ideais de originalidade, autonomia e propriedade que permanecem incontestados, mesmo após os levantes e transformações sugeridos por escolas como a arte conceitual, a arte relacional e até mesmo por práticas colaborativas baseadas em cosmovisões e saberes ancestrais.

É nesse terreno cultural, frequentemente marcado por exclusividades e hierarquias, que se inscreve o pequeno manifesto das Fichas Técnicas e Associativas: um levante iniciado no Nordeste do Brasil que propõe, de maneira articulada entre os campos artísticos, curatoriais e educativos, análises e sugestões capazes de desenvolver a ficha técnica tradicional — antes reduzida a rodapés burocráticos — em territórios de escuta e visibilidade e, sobretudo, reposicionar as consciências artísticas em prismas coletivos.

Uma provocação crítica e conceitual que parte de uma premissa simples, porém radical: toda criação é também relação. Nenhum gesto criativo é isolado; nenhuma obra nasce fora de um campo de trocas, referências e alianças.

O que se propõe aqui não é uma revolução impositiva ou normativa. Não se trata de obrigatoriedade. Trata-se da partilha de um levante que resulta em algo simples, replicável, sem custo e de alto impacto simbólico — que pode ser incorporado por artistas, curadores, museus, centros culturais, editoras, festivais, ateliês e plataformas digitais.

Na prática, em vez de listar apenas dados objetivos como título, técnica e dimensões, as fichas passam a incluir — no mínimo — três referências: ecos, rastros e afinidades que ressoam no processo de criação de determinada obra. Não se trata de substituir a ficha técnica, mas de expandi-la, possivelmente ampliando também os modos de interpretação sobre obras, processos criativos e comunidades artísticas.

Como nos exemplos abaixo, parte integrante de “Aqui Todo Indizível Se Faz Presente”, exposição individual de Geoneide Brandão, em cartaz até 15 de setembro do ano vigente, na Torre Malakoff, em Recife.

Geoneide Brandão
Série Exercícios de intimidade, 2025
Óleo sobre tela
40×40 cm
1. Nan Goldin – fotógrafa americana e ativista.
2. Eu y Ele – série fotográfica de Agripina R. Manhattan
3. Livro das Semelhanças – Ana Maria Marques [Companhia das Letras, 2015]

Ao que parece, as origens do modelo que aqui analisamos estão ligadas ao surgimento dos museus modernos — leia-se coloniais — e às práticas de catalogação do século XIX, especialmente na Europa, que se expandiram para o restante do mundo e consolidaram-se no século XX como ferramentas institucionais e mercadológicas.

Felizmente, em contraponto, a compreensão de que a criação é um gesto compartilhado é ainda mais antiga: reverbera há séculos nos modos de fazer de muitas culturas que não separam obra e mundo, criação e convivência. Está viva nos tecidos comunitários, nas práticas de partilha de saber, nas mãos que constroem coletivamente, sem a obsessão por uma assinatura única.

Encontramos essa fluidez nas cosmologias afro-brasileiras e indígenas, onde o que se cria pertence também ao tempo, ao território e às presenças invisíveis que o habitam.

Fichas Técnicas e Associativas: uma prática que parte da convicção de que, na ficha técnica, também cabe o mundo — e suas associações.

Geoneide Brandão
Paisagem, 2023
Óleo sobre tela
150×200 cm
1. Georgia OKeefe – pintora norte-americana
2. Ren Hang – fotógrafo chinês
3. A Paixão de JL – filme de Carlos Nader [2015]

Eis aqui também as encruzilhadas que movem este manifestinho e parte do campo de escuta, afinamento e contágio de onde ele ressoa:

  1. Os levantes de cibercultura e a anarquia do livro Zonas Autônomas Temporárias, de Hakim Bey, que incitam desvios e reencantamentos;
  2. As camadas de vozes ativadas no simpósio Escutas Públicas, do Museu do Homem do Nordeste, maio de 2024;
  3. E, sobretudo, os gestos de confiança trocados em diálogos críticos. É nesse entre — de questionamentos e colaborações — que destaco as presenças de Diego Mauro, escritor e curador da Bahia; e de Bruna Rafaella, artista e curadora de Vitória (PE).

Aslan Cabral é artista e curador, atuante na cena contemporânea de Recife. Sua prática atravessa a criação artística, a pesquisa curatorial e a mediação cultural, sempre orientada pela coletividade e pela imaginação crítica.Também desenvolve o Recife Original Style, projeto de turismo criativo e experiências sensoriais no Rio Capibaribe, e é um dos articuladores do Museu do Tubarão de Boa Viagem, experimento social e performático iniciado em 2015.

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